Muito tem se falando nos últimos meses que Miami poderá vir a ser o novo Vale do Silício, ou “Vale do Solício”, uma alusão ao termo “Sunshine State” (Estado do Sol) como é chamado o estado da Flórida, nos Estados Unidos. Já vem de algum tempo que a Flórida está engajada em ser o maior polo de empreendedorismo e inovação do mundo. Não à toa, historicamente, a região sempre foi referência nos mercados de entretenimento, gastronomia, turismo e imobiliário, sendo inclusive o metro quadrado, em prédio de altíssimo nível, mais vantajoso de se investir que Porto Alegre (RS).

Em Miami por exemplo, você pode adquirir um suntuoso apartamento da Aston Martin na beira da água com marina e praia particular, no qual o couro utilizado nos apartamentos é de vacas criadas em fazendas sem mosquitos, para não se coçarem e arranharem o couro, por R$ 4.000.000,00 (quatro milhões). Ou seja, você prefere investir este valor em um apartamento em Porto Alegre ou em Miami? Fora o fato de que não dá para comparar o design, a infraestrutura, as rentabilidades e as facilidades que um imóvel em Miami pode oferecer em relação a Porto Alegre, no Brasil.

Além do mais, fatores macroeconômicos, incentivos governamentais e descentralização do mindset como do Global Innovation Centre (Suécia), do Korea Innovation Center (Coréia do Sul), do Startup Nation Central (Israel), do Quartier de L’Innovation Montreal (Canadá), do Shangai Innovation Center (China) e do próprio Vale do Silício (USA), conspiram a favor de uma Miami 2.0, como tem sido chamada pelo prefeito da cidade Francis Suarez.

O objetivo dele é direcionar Miami para uma cidade focada na Nova Economia, com polos constituídos por pessoas, modelos de negócio e empresas que inovem em áreas como Inteligência Artificial, Blockchain, Criptomoedas e outros campos ligados à tecnologia.

Mas como surgiu o termo “Vale do Solício”? Pode até parecer brincadeira, mas acreditem, o principal movimento para transformar Miami em um dos mais relevantes hubs de empreendedorismo da Nova Economia surgiu no Twitter. De forma mais precisa, no dia 4 de dezembro de 2020, quando Delian Asparouhov, empresário de tecnologia e diretor do Founders Fund, um dos mais relevantes fundos de venture capital (tem em seu portfólio Airbnb, Facebook, SpaceX), escreveu um tweet: “E se mudássemos o Vale do Silício para Miami?”. Foi então que Francis Suarez aproveitou a oportunidade e respondeu: “Como posso ajudar?”.

E aí você já pode imaginar como o tema viralizou! Naquele momento, o prefeito entendeu que Miami precisaria sair de uma indústria que trabalhava com sazonalidade e vestiu a camisa para fazer acontecer. E não apenas para o mercado de startups, mas também para alavancar as criptomoedas. Ele já está criando, inclusive, uma série de eventos e levando pessoas que entendem sobre o assunto para lá. Bairros inteiros também estão sendo renovados para atender os empreendedores.

De acordo com Felipe Lamounier, a transformação aconteceu com a chegada do coronavírus. “Se me perguntassem se Miami seria o novo polo de inovação (antes da covid-19), eu responderia que não. Mas, veja o que aconteceu: o estado da Flórida sofreu relativamente pouco os impactos da pandemia e inclusive se beneficiou. Quando regiões como Nova York e Califórnia fecharam, as pessoas decidiram ir à Miami passar temporada. Foi então que elas começaram a se questionar: Por que não trazer meus negócios para cá?” E isso de fato começou a acontecer.

O prefeito anunciou, ao menos, dezessete companhias que farão de Miami sua morada. Entre elas estão Blackstone, Goldman Sachs, SoftBank e Spotify. Mas o que de fato a cidade está fazendo para se tornar um hub de inovação mundial? De acordo com Francis Suarez, Miami focará em ser pró-business e pró-empreendedor. Se for necessário ajustar ou criar infraestrutura para viabilizar, eles criarão. Ou seja, farão de tudo para que Miami se torne um importante polo mundial de inovação e que não atrapalhe empresas que desejam se posicionar neste campo. Isso porque, na Califórnia, por exemplo, existem uma série de barreiras para a Nova Economia. Conforme menciona Lamounier, muitas vezes, o governo atrapalha a evolução das empresas e isso é um problema para quem está empreendendo.

Outro ponto que o prefeito de Miami destaca é a transformação de um bairro que, por ser afastado da praia e não ser “cool”, se tornou isolado. Com a transformação, ele será revitalizado para atrair os novos empreendedores. Isso de fato não é nenhuma “tacada de mestre”! Muito pelo contrário. Inúmeras cidades pelo mundo já vem fazendo isso há algum tempo. Mas, além da própria cidade investir na revitalização de alguns bairros, o prefeito está comprometido em gerar incentivos para que empreendedores e trabalhadores de outros estados e países possam ir à Miami viver, empreender e investir.


*Juan Pablo D. Boeira é Mestre e Doutorando em Design Estratégico e Inovação pela UNISINOS e Professor de Inovação e Tópicos Avançados de Marketing na UNISINOS, ESPM e PUCRS

*Publicado na Época Negócios, em 22 de julho de 2021.


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